A Sobrevivência do Mergulhador no Mar (Roberto Trindade)

“Tolos são aqueles que aprendem com a própria experiência; eu prefiro aprender com a experiência dos outros.” – Bismark

(Publicação autorizada em parceria com o autor, Roberto Trindade – Educador, Instrutor Trainer de mergulho e de Primeiros Socorros)

“(…) Estávamos mergulhando num paredão de coral quando uma forte corrente veio do nada e levou um de nossos mergulhadores rapidamente para longe do recife. Nosso companheiro desapareceu no azul. Numa fração de segundos, consegui retornar à superfície e à minha volta não havia mais nada. Nem barco, nem costa, nada. Só um silêncio monstruoso e a sensação de continuar sendo levado em direção ao horizonte, onde o sol lentamente desaparecia. Pela primeira vez na vida, me senti só. Terrivelmente só.”

Foi com esse relato de um mergulhador em Cozumel, México, que me deparei efetivamente com a questão da sobrevivência do mergulhador no mar.

Este artigo retoma a importância do planejamento, administração e controle de mergulhos, bem como sintetiza uma pesquisa bibliográfica feita pelo Capitão de Corveta Celso Antônio Junqueira de Resende a respeito de vários procedimentos adotados por náufragos e adaptados para serem aplicados na sobrevivência de mergulhadores no mar.

Como preceito básico, todo curso de mergulho deve formar seus alunos com noções fundamentais para a prática de atividades subaquáticas de forma segura, a saber:

  • Boa saúde física e mental para praticar o mergulho;
  • Estar familiarizado com os locais de mergulho;
  • Participar somente de atividades compatíveis com seu treinamento e experiência;
  • Usar equipamento completo e em bom estado de manutenção;
  • Ouvir cuidadosamente as recomendações de quem está supervisionando as atividades de mergulho;
  • Planejar o mergulho com seu dupla e apresentá-lo ao supervisor;
  • Cumprir o planejamento e ser competente com o uso de tabelas;
  • Subir a uma velocidade de 9 metros/min;
  • Manter correta flutuabilidade;
  • Nunca prender a respiração durante as atividades de mergulho autônomo;
  • Evitar hiperventilações excessivas e/ou sucessivas durante as atividades de mergulho em apnéia;
  • Retornar ao ponto inicial do mergulho autônomo sem entrar na reserva;
  • Usar barco, bóia ou outro apoio de superfície;
  • Aumentar as habilidades de mergulho constantemente através de educação contínua;
  • Rever as habilidades de mergulho em condições controladas após período de inatividade.

Creio que perder um mergulhador no mar não é tarefa fácil, mas pode acontecer se algumas regras forem esquecidas ou menosprezadas por parte do responsável. Como profilaxia para tais situações devemos sempre considerar os seguintes aspectos:

Planejamento – Sabemos que o planejamento envolve a familiarização com os mergulhadores e com o local do mergulho, permitindo uma busca mais eficiente numa eventual emergência. Devemos lembrar que um profundo conhecimento de procedimentos de avaliação faz-se necessário. É prudente saber qual a condição física e psicológica de cada um de seus mergulhadores, nível de certificação, número de mergulhos e data da última imersão. Executar uma completa avaliação ambiental, levando em consideração itens como condições climáticas, visibilidade da água, temperatura, marés e correntes, composição do fundo, entre outros, também servem, para tornar o mergulho mais seguro.

Administração e Controle dos Mergulhos – O responsável deve possuir condições materiais e habilidades para prevenir ou imediatamente responder a um problema a fim de evitar desconforto, lesões ou pânico. Desde um planejamento adequado, levando em conta os procedimentos apropriados para o local e considerações sobre distribuição de duplas, plano de mergulho, regras gerais de segurança, podem parecer cuidados excessivos, mas como bem sabemos, com o mar não se brinca. É bom lembrar que a supervisão qualificada da operação de mergulho, tanto da superfície quanto de dentro da água é a melhor garantia para um treinamento de mar e turismo seguros.

Mas, se mesmo assim, o mergulhador se perder, o que ele deve fazer?

Seguem algumas orientações básicas, com relação a equipamentos de segurança e procedimentos, fruto de experiência colhida na Segunda Guerra Mundial e de aperfeiçoamentos posteriores.

Equipamento de Segurança

Apito – Utilizado para chamar a atenção das equipes de resgate que estejam nas proximidades. Existem equipamentos de sinalização sonora que podem ser acoplados na mangueira de baixa pressão do colete equilibrador.

Espelho de Sinalização – As experiências tem mostrado que o espelho de sinalização pode ser o mais eficiente meio de sinalização dos náufragos, pois a luz do sol refletida na sua espelhada pode ser normalmente observada até distâncias de 8 a 10 milhas (45 milhas para uma aeronave voando a 5.000 pés), permitindo focalizar uma aeronave em movimento, se o mar estiver calmo. Num dia de sol forte, a luz refletida pelo espelho tem uma luminosidade equivalente a 8.000.000 Cd. Este reflexo pode ser visto numa distância de 3 a 5 vezes maior que a distância de avistamento do mergulhador sem espelho ( um avião que esteja realizando uma busca pode avistar este reflexo antes que o mergulhador consiga ver o avião). Por esta razão, ao ouvir o ruído de uma aeronave, deve-se sinalizar na sua direção, mesmo que ela não esteja no seu visual.

Bóia Sinalizadora – Salsichas ou bóias de cores contrastantes com a cor do mar podem ser vistas facilmente. As cores ideais são o amarelo, vermelho e alaranjado. Lembre-se porém , que o estado do mar é um fator de grande importância na detecção visual, pois com o mar tranqüilo qualquer objeto atrairá a atenção do olhar, enquanto que no mar agitado, com a presença de ondas e cristas espumosas, haverá uma acentuada redução da eficiência de observação. A visibilidade meteorológica, o fator altitude, a posição do sol e as sombras projetadas pelas nuvens são outros fatores a se considerar.

Ração Alimentar – A prioridade de um náufrago não são os alimentos, mas sim a água. Existe no mercado equipamentos que podem ser acoplados ao segundo estágio do regulador (self contained underwater drinking apparatus) com a capacidade de fornecer em torno de 250 ml.

Médicos da U. S. Navy comprovaram na última Grande Guerra que a ausência total leva a uma sobrevida em torno de 10 dias.

A água é indispensável para o organismo e o balanço hídrico é regulado por dois mecanismos: a sede que leva a um aumento da ingestão de líquidos e a atividade dos rins que retém ou excreta água.

A sede pode ser minorada adotando-se alguns procedimentos relatados por alguns náufragos que com o intuito de estimular a salivação mascavam botões de roupa e pequenas porções de gazes. O bocal do regulador ou snorkel se presta bem ao fato.

Estando dentro da água e sob a influência da pressão hidrostática sofreremos um desvio da distribuição sangüínea para as veias centrais de tal modo que no interior da caixa torácica se encontram 0,2 a 0,4 litros de sangue a mais e se dá um aumento do volume cardíaco de 770 para 920 ml.

O maior enchimento do coração com sangue afeta especialmente o vestíbulo esquerdo e impede a liberação do hormônio antidiurético, que bloqueia a secreção urinária. A conseqüência é uma diurese aumentada ( reflexo de Gauer – Henry). A necessidade freqüente de urinar explica-se pelo fato de após uma permanência prolongada na água coincidirem a contração dos tecidos devido ao frio e os efeitos do reflexo Gauer–Henry.

O excesso de água do organismo será eliminado nas primeiras 24 horas. Durante esse período, evite beber água.

Numa situação de sobrevivência, a única água natural disponível será a da chuva, que nem sempre satisfaz a sede, pois nela faltam os minerais necessários ao corpo humano. Sempre que chover procure armazenar a maior quantidade de água possível, colhendo-a com a máscara e colocando-a dentro do colete, tendo o cuidado para não contaminá-la com água do mar. Durante a chuva procure beber a maior quantidade de água possível. Lembre-se que beber água salgada só aumenta a sede, além de provocar enjoos e distúrbios mentais. Não beba água do mar nem a misture com água doce. Em hipótese alguma beba urina.

Alguns Procedimentos frente a Situações que possivelmente o mergulhador venha a vivenciar numa situação de sobrevivência no mar

Tubarões – Temidos desde a Antigüidade, os tubarões são o pesadelo de todos os náufragos. A história testemunha diversos episódios nos quais os tubarões devoraram sobreviventes de naufrágios.
Alguns autores sugerem que se o mergulhador estiver na água com algum tubarão potencialmente perigoso nas proximidades, ele deve nadar com calma e na sua direção para tentar intimidá-lo, caso ele se aproxime. Outros autores sugerem completa imobilidade. O que é certo de fato é que movimentos súbitos de pânico apenas servem para aumentar sua curiosidade.

Medidas de proteção contra os tubarões

  • Não retire a roupa de neoprene nem as nadadeiras;
  • Afaste-se de locais onde existem cardumes de peixes;
  • Se estiver com algum sangramento, procure estancá-lo o mais rápido possível;
  • Se o tubarão o ameaçar de perto, nade de frente para o mesmo, numa direção oblíqua que não cruze o seu caminho;
  • Grite em baixo da água, isso pode intimidá-lo;
  • Se o ataque for eminente, procure atingi-lo com a faca no focinho, olhos, gelras ou ventre.

Caravelas e Medusas – Esses celenterados são comuns nos mares tropicais. Vivem na massa da água, flutuando na superfície ou próximo dela. A roupa de neoprene é funcional, isolando o mergulhador dos nematocistos, que provocam as queimaduras. Os cuidados devem-se voltar para a proteção das áreas expostas.

Hipotermia por imersão – A palavra hipotermia deriva do grego e significa baixo calor.

A hipotermia é uma condição de diminuição da temperatura interna do corpo causada por uma exposição excessiva ao ambiente aquático. Quanto menor a temperatura da água, menor o tempo de sobrevivência. A roupa de neoprene é um isolante térmico e favorecerá a sobrevida. Porém, gradativamente o mergulhador irá perdendo calor. O resfriamento do corpo é acompanhado de um colapso físico e mental.

Os primeiros sinais e sintomas são tremores incontroláveis por todo corpo, lábios azulados e perda da sensibilidade nas extremidades, seguida por confusão mental.

O mergulhador deve adotar a posição HELP (Heat Escape Lessening Position) mantendo a cabeça, o pescoço e a nuca fora da água. Lembre-se que 80% da perda calórica se dá pela cabeça e pescoço, e o restante pelas laterais do tronco, aéreas da virilha e órgãos genitais.

Medidas de Prevenção contra a Hipotermia

  • Evite mover-se muito, pois a água de dentro de sua roupa será bombeada para fora;
  • Proteja a cabeça, nuca e pescoço;
  • Use capuz;
  • Respire apenas pelo nariz. Isso vai aquecer um pouco o ar antes dele alcançar os pulmões;
  • Em grupo, mantenham-se unidos.

Queimaduras Solares – A reação da pele à exposição direta do sol varia de pessoa para pessoa. Dias encobertos são algumas vezes piores que dias ensolarados porque a muita luz e calor refletidos. Deve-se Ter cuidado especial com o período de 11 às 13 horas, quando os raios solares são mais fortes. A prevenção deve ser a proteção de áreas expostas.

Inflamação dos olhos – A exposição contínua ao vento, água salgada e luz intensa afetam os olhos, tendo como conseqüência mais comum a conjuntivite. Se os olhos não forem protegidos por uma venda ( o cinto de lastro se presta bem ao fato) o mergulhador poderá Ter severas dores de cabeça, ardência nos olhos, e muitas vezes, Ter a sensação de areia entre as pálpebras.

Efeitos da Água Salgada

O contato contínuo da pele com a água e o atrito da roupa de neoprene resultam em feridas e inchaços. A água salgada elimina a umidade natural da pele, provocando irritações e eczemas.

É denominado pé de imersão os efeitos provocados pela exposição prolongada das pernas e dos pés ao frio e a água. A imersão dos pés em temperaturas abaixo de 15 Graus Centígrados produz vermelhidão, desenvolvimento de bolhas e feridas, podendo resultar em gangrena. Mantenha os pés em movimento lento e contínuo.

Enjôo – Um dos problemas mais comuns enfrentados pela maioria das pessoas que estão no mar são as tonturas, náuseas e vômitos. Numa sobreviv6encia no mar, o vômito decorrente do enjôo implica na perda de água interna do organismo, e conseqüente aumento do estado de desidratação.

Aspectos Psicológicos – A adversidade da situação gera um stress físico e mental muito forte. O medo na maioria das vezes transforma-se em pânico, resultando em insucesso e fatalmente na morte do mergulhador. Um mergulhador é capaz de lidar com a situação, adaptando-se com mais facilidade ao momento específico e conseguindo amenizar o stress.

Para que tal fato seja possível, é necessário treinamento. O fator mais importante na prevenção de reações psicológicas anormais que podem ocorrer com o mergulhador em tal situação é um adestramento adequado envolvendo todos os aspectos de uma sobrevivência no mar.

No meu entender, este adestramento deve ser o mais prático possível, favorecendo a adaptação `a situação, diminuindo o medo do desconhecido e baixando o nível de ansiedade.

Frente a uma situação como esta, siga as instruções para a sobrevivência no mar. Elas são o fruto das experiências vividas por outras pessoas em situação semelhante e vão lhe ser de muita valia.
Devemos lembrar que o sucesso da sobrevivência não vai depender tanto de equipamentos sofisticados, mas sim da sua vontade de viver.

Artigo publicado na Revista SUB n. 11 – Junho/Julho de 1995 e no Journal of Underwater Education – Sources – NAUI – Fall 1996 Vol 8 Issue 4

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